sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

O tamanho dos passos de cada um

Limites não existem antes de serem delimitados pelos seres humanos, culturalmente limitados.

O limite existe de forma individual e nunca deve ser projetado no outro, que terá seus próprios limites pra conviver com as limitações que a sociedade determinou após estar tantas vezes no limite. Mesmo trabalhando com a margem de erros e da pretensa liberdade que a nova era oferece aos sobreviventes. É a era dos limites diferentes.
Exemplificando, o limite é meu, não seu. Decido não cruzar uma linha que cruzas com facilidade. Na situação ideal, meu limite nada tem a ver com o seu. E eu visto a camisa de limitado sem jamais julgá-lo por ir mais longe. Ou olhar pra trás. Ou ter coragem.

A variante que delimita o limite é baseada em bem-estar. Humanamente falando. Seres humanos podem ser ilimitados. E que o limite deve ser colocado quando a situação é nociva pra quem pratica o desbravar da regra. Ou pra quem machuca o outro ao romper tais limites.

Disseram-me certa vez que a felicidade está em saber conviver com os próprios limites. Particularmente, soa como um passo para a alienação. Soa até mesmo como potencial religião, sinônimo de alienação. Contudo, eu, assumido infeliz freqüente ou feliz esporádico (escolham!), observo tal postura, a de conviver com os próprios limites buscando a paz de espírito, caminho para a felicidade, e digo: parece funcionar.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Rompante

Em um rompante fecharei os olhos e vou escrever as verdades e vontades das últimas semanas. Não tenho opiniões formadas. Não condeno os caras que vão a saunas ou transam no lixo. Admiro a despretensão apesar de não compactuar com ela. Não tenho ego ferido e, às vezes, acho que nem sequer tenho ego. Essa energia é inútil na minha vida. Sinto falta da minha família, mas não o suficiente pra passar uns dias com ela. Não tenho vontade de ser promíscuo, mas, nada tenho contra a promiscuidade. Tenho muito a favor. Parei de ouvir música erudita. Não sei por onde começar as reconstruções. Não tenho namorado, tenho amante. Não quero namorado, quero amante. Tenho andado sozinho por aí sem propósito algum. Tenho dormido mais do que eu devo. Sinto falta dos meus amigos. Principalmente do que está longe. Quero fazer novos bons amigos. Tenho transado em frente ao espelho e admirado a anatomia como um narcisista ou apenas um curioso dos movimentos humanos. Estou escrevendo uma história. Estou com preguiça de trabalhar. Desejo estudar e que grandes oportunidades surjam na minha vida. Quero dormir se elas não forem grandes. Não estou tão triste quanto pareço. E algumas vezes a cura bateu na minha porta e eu me escondi embaixo da mesa. Sinto culpa. Sinto falta do ex e dos amigos do ex. Não quero uma segunda chance. Não saberia o que fazer se a tivesse. Tenho pouco dinheiro, quero que ele renda muito. Quero me mudar pra São Paulo. Quero tentar um mestrado. Quero continuar na música. Quero dançar. Na primeira oportunidade, quero usar alguma droga. Quero começar um curso novo e inusitado que não vai me dar dinheiro algum no futuro. Quero fazer da minha casa o paraíso de entretenimento e cultura. Se pudesse teria também um quarto de luxúria. Quero me mudar. Quero ficar sozinho. Quero ligar pro amante. Quero tomar um café. Quero comer um doce. Quero ir pra terapia. Quero ser negligente com meu anti-depressivo. Quero sair de mim e não consigo.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Impulsos por pulsos

O sonho onde o homem velho me dizia pra mudar de caminho invadiu a madrugada. Nas ruas chuvosas onde eu me encontrava seco a esperar por um guarda-chuva pra me molhar. Eu disse que não entendia e corria atrás dele. Por um segundo me deu muito medo. Até mesmo o filme morno me assustou. Quis saber dos segredos.

Pra mudar de caminho é preciso se sentir completamente inadequado nesse. E eu procurei os professores certos que me disseram que sonho é sonho e nada mais. Ainda dentro do sonho eu cheguei a chorar por paz quando o velho virou o pássaro negro e me chamou pra voar com ele. Impondo a condição de que pra ir pro céu, era preciso deixar toda a angústia vivida na terra. E eu não falei mais nada.

Acordei meio desacordado e o velho ainda estava no espelho. Cheio de cores pra cobrir a brancura da sua imagem. E reforçando que voar é pura questão de escolha. Que é preciso ter o peito livre pra bater as asas lá em cima. E eu disse que o peito livre já machucou até o mais feroz dos pássaros e já esmagou o mais corpulento dos mamíferos. Que já afogou até mesmo os anfíbios que, na intenção de apenas correr na água fluida, viu sua falta de proteção se transformar no xeque-mate que roubou seu oxigênio. Ele então me disse que tudo era medo. Que eram meras palavras de um pensador articulado, porém ingênuo.

A grande verdade, confessei pra ele, é que eu não saberia o que fazer com tais asas, com o perdão, com uma segunda chance ou com a fuga da rua abandonada cheirando a concreto molhado. Ele então me ofereceu o mais belo e suculento fruto. E disse: é como adão, eva e a serpente. Se você come, faz a digestão. E eu queria comer. Mas foi tocar na casca sedosa pra que o fruto apodrecesse na minha mão até virar outra coisa. E com isso o coração também começou a se tornar outra coisa. A se derreter pra virar a pedra. E o velho me alertou que não era bem esse o caminho. Eu pedi, por favor, que me deixasse sozinho. Que o ferreiro chegou inspirado pra fazer o que quiser da matéria prima que eu doara. E, ofendido, eu assisti quando o velho me abandonava.

Ao acordar assustado, olhei pra cima, pros lados. Nada vi. Era sonho, percebi. Mais um dia de desmotivação ia começar. Como em um desespero comecei a apalpar o peito. Pra me familiarizar logo com aquele defeito. Não era tão duro, não era nem feio. Era só um peito e o coração ainda batia. Não tão mole ou fluido como outrora, mas ainda tinha a casca macia. Só estava, de fato, mais resistente aos impulsos. E na verdade ainda era pulso. E parecia mais cicatrizado agora.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Ostinato

Você diz que é normal,

o quanto eu me sinto mal,

e diz que eu vou ficar ‘alright’.


O mundo desaba na minha cabeça,

não há tempo pro amor ou acordes de terça.

Então eu não devo estar tão ‘right’.


Eu penso em dormir.

Eu penso em me despedir.

Eu deveria parar de te ver e só viver a morte.

Mas eu acho que resta... um sopro e alguma sorte. Com sorte!


Você diz que é provado,

que há estudos e falados.

Mas as palavras de amor fogem da minha mente.

Se você não mente, o que será que sente?

O que pratica lá no seu povoado?


Eu penso em correr.

Penso em me amortecer.

Canto sem regras de afinação,

busco naquela ilha minha educação e eu só acho diamantes. Pra que? Pra que?


Você diz que tudo passa.

Inclusive a estafa.

E diz que está tudo dentro do normal.


Eu digo: ‘alright’, me dê então uma data.

Tantos estudos e falados soam como trapaça.

Eu quero que passe rápido. Tonight!!!


Eles estão comigo. Tão gentis!

Apelam pra auto-ajuda. Que imbecis!

Eu digo então que: o que eu preciso ainda não foi escrito.

E com essa canção, eu me repito.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Recursos Humanos

O que acontece é que essas vozes na minha cabeça não estão mais plenas. Nem rasgadas. Estão abafadas pelo instrumental estridente que cala a expressão genuína, orgânica e instintiva.

Quem disse que há espaço pra ser natural? Quem disse que o homem pode viver de acordo com o que pensa? E, quando disseram, será que estudaram as necessidades deste homem pra defender o ponto de vista? E o que exigem do homem pra que ele chegue a tais conclusões? Por quantos níveis devemos passar? Será que é preciso ser um humano pós-graduado pra perceber que de nada vale a sabedoria senão pelo prazer masoquista de se ver inadequado?
Dito isso, eu queria entender porque a minha auto-percepção faz minhas costas doerem. Por que as solas dos meus pés antes resistentes aos cascalhos do ar agora latejam na hora de dormir? Parece que me chamam, parece que gritam e pedem demissão. Meus pés não querem mais andar.

Hoje o sol castigava o rosto branco dando de presente o tom vermelho que o deixará menos pálido na segunda-feira. Talvez mostrando mais disposição pro que der e vier. Pra ser aquele homem que assume o controle da própria vida. Ele, moreno e suado, corria do meu lado tentando desvendar os mistérios que cria em cima de mim. Pra ele, um ser imaginativo, melhor a palidez que o permita experimentação das cores pra me vestir. Mas, pro mundo, melhor estar corado e disposto. Pra mostrar que se é um homem a quem se pode confiar o cargo que eles julgam importante. Que os mantém longe de pensamentos subversivos e questionamentos que levam o olhar pra baixo. Dito isso, tenho que pensar no que fazer quando os dias forem tão chuvosos quanto os últimos.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Um soneto sobre amizade + dois versos honestos.

- Ei, D, que não sejam namorados, mas você acha que vocês serão amigos?

- Talvez sim, provavelmente não. Ontem fomos correr juntos e percebi que provavelmente não. Quando eu corro com a F, eu corro no ritmo dela. Quando você foi correr comigo, você correu no meu ritmo. Nós fomos juntos, não é? Ele preferiu correr no ritmo dele.


Amizade tem tudo a ver com ritmo,

matemático, mas sem logaritmos,

equação, sem resposta exata.

Naturalidade, afeição inata.

Aos amigos meus.

Não cobro presença, não cobro sentença.

Não analiso o seu jeito com base no meu desejo do que eu quero que sejas.

Respeito o silêncio, entro em um consenso, jamais condeno quando se equivocam.

Ajudo a enfrentar, ajudo a fugir, estou pra ouvir e falo o que penso.

Procuro entender, procuro acolher, eu tenho interesse no seu pensamento.

Ao entrar na minha vida, com a palavra amiga, encontram sincero consentimento.

Não cobro atitudes parecidas com as minhas. E é bom que saibam desses meus tempos.

Confio na vida, na sua grande competência.

Seleciona amigos, me evita a carência.

Confio nos acertos e nas afinidades.

Confio a eles minhas grandes verdades.


- Theo, foi um alívio escrever isso. foi uma organização do meu pensamento.

- Volte logo!

- Quero um abraço quando eu chegar aí.

- Sempre terá. Aqui ou em qualquer interior, cidadezinha ou povoado.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Reality Show

Talvez tudo já tenha sido dito. Já tenha sido exposto aqui. A verdade é que nas minhas crises criativas, o que me resta é um conforto inquieto de que eu tenho provado o meu ponto. Escrevendo poemas, contando alguns contos. Talvez não haja problema, reste apenas um emblema de como resolver a quantidade de informações flutuantes que moram aqui.

Certa vez um amigo disse: ‘adoro blogs, mas é preciso superá-los’. Mas pra ele tinha outro sentido, era outro escape. Pra mim é como um caderno, uma agenda ou uma folha de papel. Eu estaria escrevendo nelas se a internet não me permitisse publicar. Acho curioso quando dizem que o blog serve de palco. Eu digo que talvez sirva de peneira pela qual o sol passa. Sim, selecionar, editar, cortar, é preciso quando a criação se envolve com o verbo publicar. Ou não.

No entanto, alguns dizem também que escrever é se organizar. Puro clichê. Pra mim escrever é bagunçar. Porque se guiar por beleza pode levar a lugares em que o ego e a verdade fatalmente brigarão pra se separar. Espero o dia em que o meu ego vai acordar e travar a guerra definitiva com a verdade. Porque não há vencedor pré-definido. E não há nenhum discurso a ser escrito. Nada mais serei do que uma residência, nada mais espero além da paciência. Tenho o interesse de me observar sem pretensão alguma de me guiar ou de chegar em algum oratório. No entanto, peço moratória pra dívida que eu tenho com esse crescimento. Há tempos eu tirei férias e observo do alto como é viver sem estar em mim.